"Eles voltam", "Câmara escura" e "Canção para minha irmã" abrem competição do 45º Festival de Brasília

  • Autor: André Dib
  • Veículo: www.andredib.com
  • Data: 20/09/2012
  • Texto: Brasília (DF) - Noite boa, anteontem (terça), no Teatro Nacional. Cinco filmes começaram a competição com o pé direito. Problemas técnicos (de som e imagem) não chegaram a impedir que três produções pernambucanas roubaram a cena: o longa "Eles voltam", de Marcelo Lordello e os curtas "Câmara escura", de Marcelo Pedroso e "Canção para minha irmã", de Pedro Severien. Abriu a competição "Câmara escura", filme político, que investiga linguagem e provoca reflexão. O método: inverter a lógica das câmeras de segurança que parte da sociedade encastelada utiliza para vigiar as calçadas, sob pretexto de evitar a violência. Como em uma ação terrorista, Pedroso e equipe escolhem quatro residências com muros altos a cercas elétricas de Casa Forte (bairro nobre do Recife) e deixam na frente uma maleta de madeira com uma câmera ligada, apontada para o rosto de quem abre. Dentro também há um bilhete com um texto sobre a possibilidade de uma imagem livre, forjada sem amarras estéticas, escrito pelo norte-americano Stan Brakhage, autor de um cinema não-narrativo e muitas vezes abstrato. No dia seguinte, Pedroso bate à porta das casas e explica que está fazendo um filme e que as imagens registradas pela câmera podem fazer parte. Ninguém autoriza o uso do material. Com medo de assalto, um dos moradores aciona a polícia. A busca de Pedroso remonta não só às inquietações de Brakhage. Um dos personagens de "O céu de Lisboa" (1994), de Wim Wenders, é um diretor de filmes que amarra uma câmera na nuca, para não ter controle sobre as imagens. Seriam elas possíveis? Durante o debate, na manhã seguinte à sessão, a crítica gaúcha Ivonete Pinto lembra que sim, e elas estão no longa do próprio diretor, "Pacific". Estas, no entanto, são subprodutos da estética televisiva, publicitária ou hollywoodiana. Nada de liberdade, portanto, neste filme sobre as limitações de repertório. Em "Câmara escura", há pelo menos uma "imagem livre", em que se vê a copa de uma árvore. É o único momento de alguma beleza poética, que alcança a espontaneidade almejada, em um projeto marcado por impossibilidades. A forma afiada e consciente com que o filme atesta isso faz dele um dos melhores, se não o melhor, já realizado pelo diretor. Na manhã seguinte, durante debate, o fotógrafo do filme Luiz Pretti (Alumbramento) disse que não se trata somente de questionar "instâncias opressoras de demarcação do espaço da propriedade privada, mas de encontrar algo de lúdico, de acaso, através de uma câmera não governada". Pedroso emenda dizendo que além da procura pela fabulação e pelo descontrole, há também o enfrentamento motivado pelo sentimento de viver numa cidade violenta, marcada pela desigualdade social. "Casas superprotegidas criam uma membrana protetora muito hostil. A ideia é devolver às casas a violência simbólica que elas oferecem à cidade". Logo depois, o documentário paranaense "Um filme para Dirceu" apresentou um personagem jovem, sanfoneiro que almeja o sucesso através de um filme de ficção que pretende realizar. Não consegue e desiste no projeto, sem saber que a diretora Ana Johann tem seus próprios planos. A figura sorridente e otimista de Dirceu desperta curiosidade, mas o filme cansa pela redundância. Mais de uma vez, o que me fez seguir em frente foi o pano de fundo, que se torna mais importante do que o personagem ou da proposta de um filme sobre fazer um filme. O melhor de "Um filme para Dirceu" está no fato de ser um etnodoc sobre a cultura polaca no sul do Paraná / norte de Santa Catarina. Ensaio sobre o conformismo na grande metrópole , o curta "Linear" (SP), de Amir Admoni, vem colecionando aplausos e elogios desde que estreou, mês passado, em Gramado. Diferente da maioria das animações, Amir coloca o domínio formal baseado em diferentes técnicas de animação a serviço de um conceito muito bem definido. Na sequência, Pedro Severien apresentou "Canção para minha irmã", que estreou no último Cine PE e dali foi para o Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte. Depois de Brasília, o curta de Pedro vai para o Festival do Rio, sendo o único pernambucano a representar o estado em um dos maiores festivais do país. "Canção para minha irmã" faz um interessante diálogo entre as artes através do cinema, desde sua origem acusado de "engolir" o teatro, a música, artes plásticas e literatura. Tudo isso está belamente articulado no filme de Pedro: na ótima interpretação da atriz gaúcha Sandra Possani; na fotografia de Pedro Sotero; na música de Tiago de Melo Andrade - o cantor Zé Cafofinho, que no filme interpreta um presidiário em regime semi-aberto, que vai visitar a irmã após uma enchente que dizimou a cidade; e no texto adaptado de um conto escrito pelo próprio Pedro, "O homem que explodiu". Antes da sessão, em conversa com o diretor, as intenções vêm à tona: "O conto acontece no plano abstrato, não se sabe quem é o personagem. Quando resolvi fazer o filme, foi um pouco motivado em propor um filme dentro do filme. Quando a personagem conta uma história, ela estimula o espectador a criar outras imagens. Já tinha visto isso em um filme de Louis Malle, “Meu jantar com André”, em que dois caras jantam e contam histórias. Essa aproximação entre literatura e cinema me interessa". Pedro ainda conta que o filme surgiu antes das enchentes que assolaram a região de Barreiros, litoral sul de Pernambuco. "Queria tratar de uma situação em que a paisagem interior dos personagens pudesse ser expressada pelos lugares, pelos ambientes, por uma forma física e visual. Quando vi as imagens da enchente na TV quis ir lá, olhar, entender como as pessoas lidam com aquilo e percebi que aquilo tinha tudo a ver e poderia ser incorporado no filme. Outras coisas vieram desse encontro intuitivo. Nunca me fecho em uma ideia, para não ficar preso a ela. Não fecho o meu olhar, mantenho uma antena sempre para o que está acontecendo. Isso renova a energia de um filme. A melhor surpresa da noite veio com "Eles voltam", primeiro longa de ficção de Marcelo Lordello. E também da Trincheira Filmes, da qual fazem parte Leonardo Lacca e Tião. Em 2010, Lordello esteve em Brasília com o documentário "Vigias", filme noturno, de textura granulada, sobre a relação dos que guardam os condomínios com os patrões e o entorno. Antes ainda, em 2008, ele esteve na competição de curtas com "Nº 27", agora transformado em prelúdio para o filme que abriu a competição de longas de ficção. Impressiona o fato de o longa ter sido feito com o dinheiro de um curta (a parte da produção contou com R$ 80 mil - até a finalização, tudo custou em torno de R$ 400 mil). O resultado impressiona. "Eles voltam" é um filme precioso e delicado, onde cada plano significa algo. Sua construção, compassada em silêncios, é capaz de criticar o apartheid ensimesmado da classe média ao mesmo tempo em que a coloca no colo. O filme começa com Cris (Maria Luiza Tavares, a mesma de "Nº 27") sendo abandonada pelos pais na beira da estrada, no caminho entre o litoral sul e o Recife. Eles não voltam. Sozinha, inicia uma jornada de auto-conhecimento. Cris é uma adolescente como tantas outras: estuda em colégio particular, vê o mundo amparada / anestesiada pela tela de um iPhone e não sabe varrer o próprio chão. A falta de motivos aparentes para o abandono de Cris causa estranhamento. Pode se questionar que pais são esses. Não é o caso, já que há abertura para uma estrutura fabular. De qualquer forma, não seria má ideia outros filhos da classe média passarem por experiência parecida. O processo vivido por Cris pode encontrar sensação próxima à de voltar de uma viagem longa e olhar para a própria casa como fosse a primeira vez. Mas isso seria um reducionismo, pois esse olhar liberto se amplia para a cidade, para si mesma. "Eles voltam" é um filme que examina e desperta para o agora. Há esperança. Emblemático que o início da jornada surja com a canção "Tudo que você queria ser" (Clube da Esquina). "'Clube da Esquina' é pra mim um disco sintomático. Existe um otimismo no filme e sempre o imaginei com aquela música", diz Marcelo, em debate na manhã seguinte à sessão. Ele também falou que a vontade do filme é demonstrar que existe vida fora do circuito condomínio / shopping center. "Falo de pessoas que crescem em ambientes sufocantes e não questionam. Com a experiência, elas percebem aquele ambiente de outra forma. Não são pessoas alienadas, mas que passam por um processo de conscientização de que existem outras formas de vida, e que essas pessoas vivem bem, de maneira positiva". O trabalho com atores foi essencial. Profissionais (entre eles, Germano Haiut como o avô de Cris) trazem ao filme, como diz o diretor, "um peso dramático", enquanto não-atores representam personagens que a garota encontra mundo afora. "Quis fazer um filme sobre o Brasil, com litoral e muito interior. Para Cris perceber o país em que vive, nada mais correto e ético do que promover encontros com pessoas que vivem nesses ambientes".

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